Ser útil para se perpetuar

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“Empresas úteis são eternas.” Seria esta afirmação um bom tema para a próxima conversa sobre o futuro do seu negócio?

Parece cada vez mais natural ver empresas vendidas, absorvidas por fusões ou até tomadas de forma hostil. Ou então fechando as portas depois de “armadilhadas” em escândalos dos mais variados tipos. Outras ainda se extinguem depois de movimentos arriscados demais, motivados por ambição desmedida. Ou são absorvidas por jogos de mercado em que se tornam peões em sistemas de construção de fortunas baseados em engenhosas manobras financeiras.

Mas, por outro lado, há empresas cujos líderes buscam fazê-las atravessar gerações. Para perpetuar o nome da família. Ou para deixar um legado para as gerações seguintes. Algumas delas estão focadas no império material. Outras, na continuidade de uma causa. Pensam nas gerações futuras – não só nos acionistas. O foco é outro. É contribuir para a sociedade como um todo. Estas são as empresas úteis, que “se tornam eternas” graças a seus valores e a seu propósito.

São úteis porque, basicamente, buscam atender às necessidades mais relevantes da comunidade. É o caso do Grameen Bank de Bangladesh, criado para assegurar acesso a crédito à maioria da população (os “excluídos” do sistema financeiro tradicional) e fomentar o desenvolvimento do todo. No Brasil, é o caso do Banco Palmas, criado com o mesmo objetivo. São empresas úteis. E por isso de sucesso. Evoluem, crescem e dão lucro, inclusive. No primeiro plano está o atendimento às necessidades da comunidade. Todo o resto é consequência de uma gestão eficaz, com propósito nobre.

As necessidades mais sutis só serão prioridade quando o foco
mudar do PIB para a FIB (felicidade interna bruta).

Mas há os que veem, nas necessidades da sociedade, oportunidades de ganho. Para estes, os ganhos financeiros estão em primeiro plano, não o propósito de ser útil. É nesse aspecto que o debate em nosso planejamento poderia se concentrar. Pois é nessa inversão de valores que está o risco oculto, gerado por distorções, seja na forma de necessidades artificialmente criadas ou até na indução ao consumo de produtos desnecessários ou até prejudiciais. Mesmo em áreas mais nobres, como a saúde e a educação, são grandes as distorções quando existe essa inversão.

Talvez todas essas distorções sejam causadas pela falta de ação empreendedora no atendimento a necessidades mais sutis. Necessidades de maior justiça econômica e social, de mais harmonia, de menos violência. De mais cuidado com a natureza e mais respeito à vida em todas as suas manifestações. De mais senso de pertencimento a uma comunidade mais ética. De bem-estar e realização do espírito.

Mas essas necessidades mais sutis só serão vistas e postas em debate em nosso planejamento quando o foco não estiver mais na maximização do PIB, mas na otimização da FIB (felicidade interna bruta), do bem-estar da sociedade como um todo. Só então poderemos dizer que nossa empresa é verdadeiramente útil e está em evolução permanente…

*Oscar Motomura é diretor-geral da Amana-Key, especializada em inovações radicais em gestão, estratégia e liderança

Publicado na Revista Época Negócios – Número 53 

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