Dilemas da inovação

299
0
Compartilhe:

Até que ponto as inovações deveriam estar conectadas à responsabilidade social, econômica, política, ecológica?

Estamos todos buscando inovações, em todas as áreas da atividade humana. “Inovar é preciso.” Não deve existir uma só empresa hoje em dia em que inovação não esteja na lista de prioridades da alta administração… Na medida em que tudo ao nosso redor evolui, muda e se transforma num ritmo cada vez mais acelerado (em função de uma verdadeira corrida pela inovação…), somos como que impelidos a inovar, para não ficar para trás. Assim, contribuímos para acelerar ainda mais essa já tão acelerada corrida. E o círculo se auto-alimenta.

E tudo isso é bom? Alguns diriam: “é o motor do progresso em funcionamento”. Será?

Não necessariamente… A busca cega por inovação pode nos aprisionar em vários tipos de paradoxos:

Inovações extraordinárias que resolvem problemas e aproveitam oportunidades em nosso benefício, mas, ao mesmo tempo, prejudicam outros stakeholders?

Inovações interessantes em coisas pequenas, supérfluas ou aparentes, e falta de inovação em coisas maiores, essenciais, menos visíveis?

Inovação somente em partes, beneficiando poucos e criando problemas que prejudicam muitos?

Inovações que favorecem muitos hoje, mas criam grandes distúrbios para as futuras gerações?

Inovações que resolvem problemas criados no passado, mas não solucionam os problemas de hoje e do futuro?

Inovações para aproveitar oportunidades criadas pelas gerações passadas, mas que não constroem legados positivos para os que virão depois de nós?

Os avanços gerados nestes últimos séculos apresentam efeitos colaterais – em certos casos, gravíssimos.

Se levarmos em conta os grandes problemas da humanidade hoje (desequilíbrio socioeconômico; o fosso entre os que têm muito e os que têm pouco; a escalada do crime, da violência e das guerras; os abusos crescentes contra a natureza e o meio ambiente), percebemos que as inovações que viemos gerando nestes últimos séculos têm sido no mínimo parciais, fragmentadas, além de apresentar efeitos colaterais, em certas áreas, gravíssimos.

Até que ponto o atual movimento por maior responsabilidade corporativa (principalmente no âmbito social e ecológico) leva em conta esse tipo de reflexão? O processo de inovação em sua organização – que deve estar cobrindo todas as áreas relevantes: produtos, serviços, processos, estrutura, distribuição, suprimento, jeito de atender os clientes e o mercado, jeito de atuar com parceiros – busca também assegurar que essas inovações contribuam para fazer a sociedade como um todo evoluir de forma saudável, sem qualquer tipo de efeito colateral?

E é uma saúde integrada, em que não somente os aspectos físicos (produtos, processos) recebem atenção, mas em que também os mais internos (inclusive os ligados a crenças, valores, propósito, razão de ser) são considerados essenciais, nucleares? Sua organização está bem posicionada estrategicamente também nessas dimensões.

*Oscar Motomura é diretor-geral da Amana-Key, especializada em inovações radicais em gestão,  estratégia e liderança.

Publicado na Revista Época Negócios – Número 16

Compartilhe: